Desconfiei
que secaram todo o
leito
do rio
da palavra
Desconfiei
que comeram
toda a carne
do poema
Desconfiei
Desconfiei
que a palavra dita
não precisa ser escrita
que a palavra dita não
precisa ser escrita
que a poesia bem ou mal
dita
não precisa ser escrita
que a poesia
não precisa ser
descrita
Desconfiei que essa
vida
não era a minha
Desconfiei do teu corpo
morto
Desconfiei do fim
do bimestre
do semestre
da gênese
e do fim
Desconfiei
de mim
de ti
de Deus
de não Deus
da ciência
Desconfiei
da minha confiança
na minha desconfiança
de tudo
Desconfiei
da espera
e do movimento
Desconfiei
forte
pleno
inteiro
e tão profundamente
Desconfiei
Desconfiei
até desaparecer
meu corpo
meu ser
meu ter
Desconfiei
Desconfigurei
Decodifiquei
Alcancei
o início
e no início
era o verbo
e o verbo
fez-se carne
e eu Desconfiei