Era eu todo pranto,
Revolta e lamentação
.
Cada prédio enfiado na
terra
Doía-me como um cravo enfiado no
pé;
Cada pé de jambo
arrancado
Fosse uma unha de minha
mão.
Não existia um pagão ou
um cristão
Que fenecesse da ferida
da modificação
Da Maraponga
Como eu fenecia
.
Vestia a glória de ser
seu único amante
Queixoso dessa
degradação
.
A verdade é que meu
grito
Cobria as vozes das
coisas;
Bastou eu calar
Para escutar o choro do
concreto.
Os condomínios se
defendiam
E os azulejos da loja
de pisos
Murmuravam vergonhas
por não possuirem
Formato nem vida
Nem cor
Das samambaias que um
dia estiveram
Naquele lugar
.
Olhei para o chão
Já não havia paralelepípedos
como meio-fios.
Em que eu me
equilibraria agora
?
O asfalto jovem
convidou-me
A ir até o campinho do
Holanda
Conversar com as ruínas
do antigo casarão dos correios
Que desejava ter comigo
"
Já abriguei notícias e
crimes
Fui cenário de
modernidade
Agora abandonada sou
casa
De drogas vadiagem e
violência
Menino, nada disso foi
desejo meu
Onde foi que já se viu
tijolo e cimento
Desejar?
"
Era como se eu visse
toda a Maraponga do alto,
Como se atravessasse sua
lagoa
E da travessia
Pudesse enxergar todas
as Maraponga
Que existiram e que
existirão.
Todas,
Em sobreposição
.
A verdade é que eu não
sabia das coisas
E as coisas não sabiam
de mim.
.
As ruas Leon Gradvohl,
Francisco Glicério
Uirapuru
E a avenida Godofredo
Maciel
Agora são veias
A Maraponga é um corpo
humano
.



