sexta-feira, 8 de março de 2013

Reconhecimento do Corpo, ou Mais um poema para a Maraponga


Era eu todo pranto,
Revolta e lamentação
.
Cada prédio enfiado na terra
Doía-me como um cravo enfiado no pé;
Cada pé de jambo arrancado
Fosse uma unha de minha mão.
Não existia um pagão ou um cristão
Que fenecesse da ferida da modificação
Da Maraponga
Como eu fenecia
 .
Vestia a glória de ser seu único amante
Queixoso dessa degradação
 .
A verdade é que meu grito
Cobria as vozes das coisas;
Bastou eu calar
Para escutar o choro do concreto.
Os condomínios se defendiam
E os azulejos da loja de pisos
Murmuravam vergonhas por não possuirem
Formato nem vida
Nem cor
Das samambaias que um dia estiveram
Naquele lugar
 .
Olhei para o chão
Já não havia paralelepípedos como meio-fios.
Em que eu me equilibraria agora
?
O asfalto jovem convidou-me
A ir até o campinho do Holanda
Conversar com as ruínas do antigo casarão dos correios
Que desejava ter comigo
"
Já abriguei notícias e crimes
Fui cenário de modernidade
Agora abandonada sou casa
De drogas vadiagem e violência
Menino, nada disso foi desejo meu
Onde foi que já se viu tijolo e cimento
Desejar?
 "
Era como se eu visse toda a Maraponga do alto,
Como se atravessasse sua lagoa
E da travessia
Pudesse enxergar todas as Maraponga
Que existiram e que existirão.
Todas,
Em sobreposição
 .
A verdade é que eu não sabia das coisas
E as coisas não sabiam de mim.
As ruas Leon Gradvohl, Francisco Glicério
Uirapuru
E a avenida Godofredo Maciel
Agora são veias

A Maraponga é um corpo humano
 .

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